Grande amigo, parceiro de uma vida, jornalista profissional e músico por opção. Definição do colega Aurélio Carlos Albano que nos deixou no último sábado (17/1), aos 61 anos, quando foi encontrado sem vida em seu quarto, na residência da família, em Olímpia (SP). Essa era a morada dele há cinco anos, desde que deixou Londrina para voltar a residir com mãe, dona Teresinha, de 94 anos. Aurélio teve passagens pela Folha de Londrina, onde foi editor da Folha Rural e Folha Economia.

Foi também repórter e editor do antigo JL, creio que foi da primeira turma de contratados do jornal, ainda em 1989, quando empresários criaram um periódico para concorrer com a Folha. E foi um sucesso, os mais grisalhos se lembram. Délio Cesar, Luis Carlos Lorencetti e aí entraram vários colegas novos que logo ganharam credibilidade. Aurélio estava nessa turma, para sorte dele.

Lembro de um texto bem intuitivo que ele publicou, em 1990, sobre a histórica manifestação popular ocorrida no Terminal Central de Transporte Coletivo, no centro, quando estudantes e usuários do transporte enfrentaram a Polícia Militar. A imprensa ficou no meio do levante, entre manifestantes e PMs. Foi uma cobertura tensa, que resultou em jornalistas feridos, lembro da colega Mara Salai, ex-TV Coroados, atingida por uma pedra na cabeça.

A focaiada, e eu me incluo nessa turma, escreveu e publicou como louca. Na edição do JL do dia seguinte Aurélio emplacou um texto interessante onde contou os detalhes da manifestação. Munido de um pequeno gravador, ele foi narrando o motim. Na redação ele decupou a gravação e publicou na íntegra. Deu página inteira.

A carreira de repórter foi curta. Foi na edição que ele se destacou, e no concorrente do JL. Contratado pela Folha, ele chegou rápido à edição de cadernos importantes como Folha Rural e Folha Economia. Tive a oportunidade de trabalhar ao lado dele, dividindo o ambiente com colegas que me ensinaram muito – Jota Oliveira, Cláudia Barberato, Ruth Meira e mais tarde José Cláudio Osti. Nessa época a Folha tinha um time de editores que (penso eu) era coisa de grande imprensa: João Arruda, Nelson Capucho, Widson Schuartz, Stelio Feldman. Nosso editor chefe era o inesquecível Walmor Macarini. Tinham outros nomes de peso que até hoje estão na ativa demonstrando fôlego e valentia – Adriana de Cunto, Célia Musili, Lucília Okamura.

Trabalho reconhecido à parte, queria nesse espaço lembrar uma manifestação sensível e legítima da colega Cláudia Costa, no último sábado. Em um texto emotivo Cláudia sustenta que Aurélio se muda de Londrina para Olímpia pela dureza do mercado de trabalho e da nossa profissão. Verdade absoluta! No interior paulista ele não se enquadrou.

O amigo acabou adoecendo. Segundo a Central de Velórios de Olímpia, a causa da morte não foi identificada. Para mim ele cedeu a problemas cardíacos, agravados por uma vida desregrada de álcool e tabaco. Ficou difícil para ele, imagino.

Uma morte que abriu espaço para refletirmos sobre nós mesmos. Eu que caminhei com ele durante anos a fio fico com essa interrogação na cabeça. Como ajudar alguém à distância? Quando ele morava aqui indiquei, fizemos trabalhos juntos – não foi suficiente. Quero afirmar que o amigo era culto, bem-informado, tinha vocação para o jornalismo. Filho de advogado (doutor Albano, formado na USP, na década de 1960), quando adolescente foi leitor assíduo. Comportamento que refletiu no desempenho profissional. Enfim, hoje tenho mais dúvidas do que apontamentos…

Ah, fomos parceiros musicais, em um tempo em que ser músico em Londrina bastava ter um repertório interessante. Entoamos juntos muitas noites com violão, voz, flauta, percussão, contrabaixo. O instrumento dele era flauta transversal – era autodidata. Por um tempo ele tocou (e muito bem, na minha opinião) sax alto. Não lembro de ele ter aula de música. Impressionante.

Aurélio Albano com sua flauta

No último dia 6 de janeiro o amigo deixou um post no facebook lamentando e lembrando a morte de Lô Borges (para nós o cara da MPB). Ele escreveu que tinha uma música na cabeça “Faça seu Jogo” onde Lô narra um mundo utópico. Ele dedicou a alguns amigos, me incluindo na lista afetiva.

Eu sonhei outro mundo, meu amor
E a paz morava na nossa casa
Mil pessoas como nós
Sem palavras, por viver

Isso aí, caríssimo: jogue sua vida na estrada!

Com o coração apertado, o amigo de cá!


Texto de Pedro Livoratti, jornalista em Londrina, em memória de Aurélio Albano.

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